CINEMA
NACIONAL (2)
LAVOURA ARCAICA
Não parece cinema, parece poesia. Lavoura Arcaica, que
tão-somente agora vi em DVD, possui texto e narrativa
com densidade poética. É lento, em seu percurso,
como costumam dizer dos filmes de arte. Às vezes, tenta
nos botar pra dormir. Principalmente se você assisti-lo
na cama, como eu fiz. Mas não saí dela. Das personagens,
André, Ana e da mãe deles, escorre um sensualismo
primitivo pelas travas da algema do pai patrão. O pai
é condutor e o guardador do rebanho. Muitos momentos
se assemelham com nossa criação tradicional. O
padrão é a rigidez. Por isso, as fugas. Lembrei-me
das "solitárias", escondidas. Hoje, as considero
tão sagradas quanto a terra, as árvores, as estrelas,
o mar. Antes havia o medo, o estigma do pecado. A procura do
gozo, no entanto, vencia todos os tabus. A família mais
uma vez me parece o ovo que você tem de quebrar, dilacerar,
para sair para a vida. O filme mostra a nossa eterna busca da
liberdade plena, inatingível.
|