CINEMAS
DO INTERIOR* (1) (Crônica)
No final do romance Iracema, o escritor José de Alencar
registrou, de forma categórica, a seguinte frase: “Tudo
passa sobre a terra”. Coisas boas e coisas ruins. Como
é mais benéfico para a memória da gente
relembrar os fatos bons da vida, pensei em discorrer sobre a
minha terra natal, Ribeirão, interior do estado, tocando
especialmente num tempo em que a Princesinha dos Canaviais possuía
dois grandes cinemas: o Cine Bandeirante e o Cine Art.
Era um período de agitado comércio devido ao
funcionamento de quatro usinas naquela região da Mata
Sul: a Usina Caxangá, a Usina Estreliana, a Usina Aripibu
e, logo ali, perto de Rio Formoso, a Usina Cucaú. O Ribeirão,
também conhecido como rio “Jambreiro”, era
propício aos mergulhos e a cana-de-açúcar
ainda não havia tomado o lugar das azeitonas e dos araçás
nas áreas mais altas da Mata Atlântica. Eu me lembro,
as horas que antecediam cada filme, nos cinemas da cidade, se
tornavam verdadeiros pontos de encontro da juventude daquela
época. O tradicional pipoqueiro, o homem do quebra-queixo,
o algodão doce, a gurizada que vendia gibis, os mais
velhos, no Bar da Sinuca, esperando a hora de iniciar a projeção
e as matinês nos domingos faziam parte daquele cenário.
Nem nos livros mais avançados de Júlio Verne vislumbraríamos
o advento do vídeo cassete. DVD? Nem em ficção
científica. Vídeo foi uma novidade que apareceu
nos anos oitenta, e estávamos perto do final dos anos
sessenta. Cinema de arte nem filme-cabeça passava pela
minha cabeça. Eu, meus irmãos e meus amigos assistíamos
aos famosos seriados: Zorro, o Fantasma, Roy Rogers, Buck Jones
e tantos outros. Os filmes de aventuras impressionavam a alma
de um menino de quase onze anos. Vi Ursus, Hércules,
Maciste, os faroestes de John Ford, os adultos falavam em Hitchcock,
O Matador de Gigantes jogava fantasia na cabeça da gente,
e Seu Alceu, na sala de projeção, constantemente
assediado por nós que buscávamos sinopses, cartazes
velhos de filmes e recortes de fitas, tentava manter a velha
máquina em condições de rodar. Seu Alceu
trabalhou muitos anos no Cine Art, cinema já extinto.
Acho que morreu, depois que o cinema fechou. O Cine Art ficava
bem próximo da minha casa, no bairro da Fábrica.
Depois da falência, virou supermercado, casa de bingo,
igreja evangélica e, atualmente, depois de todos esses
anos, nem sei mais que tipo de atividade o prédio comporta.
Do outro lado da cidade, na direção do Bairro
Novo, o dono do Cine Bandeirante, Seu Ismael, adorava trazer
os Clássicos de todos os tempos: El Cid, Ben-Hur, O Rei
dos Reis, O Manto Sagrado, A Mosca da Cabeça Branca,
Dio, Come ti Amo, etc. Este último, quando era anunciado
pelo carro de propaganda, em circulação pela cidade,
alvoroçava a juventude feminina e era a causa da baixa
freqüência nas aulas do Savina Petrilli e do “Colégio
do Padre”, à noite. A turma que gazeava aula era
de quase 90%, na estréia. Em compensação,
a paquera aumentava quase que na mesma proporção.
Foi mais ou menos nessa época que ingressei no antigo
Colégio Agrícola de Escada, também no interior
de Pernambuco. A partir dali, o prazer de ir ao cinema ficou
restrito aos finais de semana. Não que não houvesse
cinema na cidade de Escada, porém, a mesada semanal que
meu pai me passava não me permitia esse luxo. Ainda assim,
me recordo de um filme que chamou a atenção dos
meninos do internato: Charada, de Hitchcock* (2). Confesso que
pedi a papai um dinheiro a mais, naquela semana, e consegui
ver o filme.
Entrando pelos catorze anos, princípio mesmo da minha
vida de cinéfilo, sempre relembro com alguma emoção
os meus companheiros e companhias de salas que encontrei ao
longo da vida. Continuamente, nos finais de semana, quando retornava
do internato para a casa dos meus pais, encontrava João
Fabrício, também conhecido como João Branco,
e que era fã de Trinity. Foram inúmeras as vezes
que assistimos àquele misto de faroeste e comédia,
no extinto Cine Bandeirante. Passávamos a projeção
rindo com as traquinagens do “galego” e do seu amigo
gorducho, interpretado por Bud Spencer. Outro amigo especial,
ligado também em faroestes e que tinha como ídolo
o ator Burt Lancaster, era Maro Giroldo. Não perdia um,
porém o filme tinha que ter bala. De vez em quando, aparecia
na cidade um western “psicológico”; e ele,
depois de meia hora de filme, ficava olhando pra mim, desconfiado:
- Esse filme não tem bala, não, Joca?
Entretanto, o meu vizinho, amigo e poeta, Antônio Olívio
Ramos, era de quem eu mais aprendia sobre cinema. Pesquisador
livre da arte cinematográfica, Olívio colecionava
recortes de jornais e revistas sobre cinema. Escrevia artigos
sobre Chaplin e outros diretores consagrados. No final do ano,
ele passava um papel para pessoas conhecidas, solicitando de
cada uma a relação dos dez melhores filmes daquela
estação. Era um rapaz muito culto e de quem eu
consegui aproveitar os primeiros ensinamentos sobre a arte poética
e a “sétima”.
Confesso que foram bons tempos, aqueles. Quando começou
a década de 70, foi o auge das pornochanchadas: Adriana
Prieto, Sandra Bréa, Vera Fischer, Helena Ramos, Lady
Francisco eram nomes que sempre apareciam nesse gênero
de filmes, e que surgiu, coincidentemente, na mesma época
do despertar sexual de muitos rapazes. Lembro de uma atriz que
era o objeto de desejo da minha turma de amigos e eleita por
unanimidade a mais gostosa da tela: Matilde Mastrangi. A sessão,
quase sempre, era só para homens.
- Joca, hoje tem Matilde Mastrangi, no Cine Art!... Vamos lá,
negão?
Eu não perdia um. Masturbação era feito
pelada, sinuca, banhos de açude, o pião e as bolas
de gude dos mais novos: todo dia tinha.
Aos quinze anos, fui estudar em Barreiros, litoral sul de Pernambuco.
Penúltima cidade antes da fronteira, se você quer
alcançar o território de Alagoas pelo caminho
das praias. Segundo especialistas, a terceira cidade brasileira
com maior queda pluviométrica. Ali aprendi um pouco de
algumas coisas, quando ingressei no segundo internato agrícola..
Havia em mim, e na maioria dos jovens que chegavam àquela
escola, uma sede de saber própria de quem vive os sonhos
da juventude. Sabia-se que naquele local havia meios para se
ampliar um campo de experiências e de oportunidades, além
da satisfação de se estudar numa escola pública,
gratuita e de boa qualidade.
Após dois anos de escola, a singularidade do curso técnico
em Agricultura, para alguns, não bastava. No meu caso,
envolvi-me com literatura e, novamente, com cinema. Meu olhar
se encantava a cada dia com a história da sétima
arte. Barreiros, na época, possuía dois cinemas.
Nos dias de folga, eu costumava freqüentar os cines Recreio
e Radar, principalmente, às quartas-feiras, à
noite, única folga no meio da semana. Era minha maior
diversão, numa cidade com poucas opções
de lazer cultural. Numa dessas noites, meu amigo Roberto me
indicou um filme. Fui com meus companheiros de quarto assistir
Houve Uma Vez Um Verão (Verão de 42) e saí
do cinema impressionado. O filme era muito bonito e falava de
adolescentes como nós. Falava, também, de iniciação
sexual, um tema sempre presente nas nossas conversas após
as aulas. A partir dali, a tela grande começou a fazer
parte do meu cotidiano, e eu passei a assistir, cada vez mais,
a filmes de diferentes gêneros, sozinho ou na companhia
de meus amigos. E esse encantamento me dominou, verdadeiramente,
até os dias de hoje.
Tempos depois, de volta a Ribeirão, assisti aos últimos
dias do Cine Bandeirante, quando meu amigo, Amaro Roque, ainda
tentou conduzir o cinema, trazendo grandes sucessos como O Destino
do Poseidon, Tubarão, King Kong, etc., porém,
o destino daquela sala de diversão já estava selado.
Faliu bem antes do aparecimento dos vídeos nas casas
dos mais abastados. De nada adiantava Roque, na frente do cinema,
convidando a população, depois da Missa, para
assistir aos filmes. Como última cartada, partiu para
os filmes de karatê e faroestes italianos, ainda na tentativa
de salvar o cinema, mas foi tudo em vão.
- Pessoal, se o artista parar pra cuspir no meio da briga,
eu devolvo o ingresso! – Gritava Amaro, antes da projeção,
tentando agradar presumíveis clientes. Dizem que o Bandeirante
ainda sobreviveu alguns dias, graças ao efeito apelativo
dos filmes pornô.
Hoje, passados mais de trinta anos, descubro, em minhas visitas
às cidades interioranas em que vivi, o desaparecimento
das salas de cinema; primeiramente, provocado pelo advento do
vídeo cassete e, agora, mais recentemente, com o surgimento
do DVD. Surgiram, também, equipamentos mais sofisticados
que competiam com o equipamento obsoleto de nossos cinemas interioranos.
Mais tarde, as pessoas passaram a alugar fitas e sentiam mais
segurança e conforto ao assistir aos filmes em casa,
diferentemente das cadeiras velhas e mal cuidadas dos nossos
cinemas, onde proliferavam as baratas e os percevejos.
Por outro lado, perdemos um muito em sociabilidade. Esta semana,
assisti ao filme Vinicius, sozinho, dentro do quarto, insone,
duas horas da manhã, e a nostalgia tomou conta da minha
alma. Imaginei-me assistindo Vinicius, num telão, em
um bar, com meus companheiros boêmios daquela época:
Nilson Braga, Clóvis da Costa, Airon do Cavaco (que já
não está entre nós), Lula (meu irmão),
Zé Tempero, Nando Tim Maia, Sisnaldo, Juarezinho, a dupla
inseparável: Van e Hélio Cachaça, Antônio
Olívio, Suruagy, Paulo Sóstenes e tantos outros,
porque um filme desses não é pra você assistir
sozinho. Os olhos começam a marejar e você é
incapaz de impedir...
Atualmente, em Recife, uma vez ou outra, encontro gente conhecida
pelos corredores dos cinemas dos shoppings e relembro, com saudade,
os velhos e bons tempos dos cinemas do interior, hoje, em sua
grande maioria, desaparecidos.
NOTAS DO AUTOR:
*1 – Cinemas do Interior faz parte da coletânea
de crônicas e contos, OLHARES EM PERNAMBUCO, organizada
por Ricardo Souza (Zapata) e Roque Braz, em conjunto com a pernambuco.org
*2 – No livro OLHARES, por uma falha de memória,
eu coloquei o filme Charada, como dirigido por Hitchcock. Na
verdade, o filme apesar de ter todas as características
do estilo Hitch, foi dirigido por Stanley Donen, em 1963.
|