CARTA AO POETA

Poeta amigo,
Ontem eu me lembrei daquele filme no qual Ingrid Bergman ficou de cara inteira na tela, olhando pra gente com os olhos azuis mais lindos do cinema. Por Quem Os Sinos Dobram. Depois do filme, eu achei que havia uma beleza bem dentro da beleza que eu nunca consegui explicar. Naquela noite, me pareceu tão nítida. Mas era simplesmente meu encanto pela atriz, acho...
Hoje, vivo à procura dessa outra beleza nunca mais encontrada. Vejo sujeiras nas ruas e sujeira nos homens. Na sujeira das guerras espocando nos noticiários, envelheço. Para não desistir, imaginei que um poema ajudaria na travessia dessa ponte que nos liga aos humanos. É para você:

AO POETA COM CARINHO
Para Antônio Olívio Ramos (in memoriam)
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É preciso observar o crepúsculo das paredes cobertas de passado,
Mas continuar abrindo as janelas de janeiro.

É preciso observar os velhos prédios escondendo vida de gente pequena das grandes cidades
Para envelhecer sem desistir.

É preciso ser solidário às meninas iguais àquela que, um dia, me ofereceu uma flor
E proteger outras crianças que estão se desconstruindo nas ruas das balas perdidas.

É preciso construir a resistência como quem trabalha a reciclagem e a vida;
Compor o amor coletivo das mães da Praça de Maio que choram seus filhos

E sentir, compreender o carinho de Jean Genet pelos sórdidos, pelos homossexuais e pelos ladrões;
Ouvir uma canção de ninar na voz de Milton Nascimento

E reler sempre os versos de Pinto do Monteiro e de Cora Coralina.
Lembrar a nossa rua do interior, intacta, sem o nefasto e desordenado progresso
que asfalta flores e atropela crianças

E manter, Olívio, para sempre, nossa condição de pretensos poetas,
diuturnamente postos a serviço da Liberdade!

Ah, poeta, tudo isso é muito caro para esta geração de homens mesquinhos...
Só para os raros...como afirmava Herman Hesse. Só para os raros...

Joca de Oliveira




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