CARANGUEJO
Cinco horas da tarde. A feira livre já estava por terminar.
Espalhados no pátio do mercado, os últimos feirantes
desarmavam suas barracas. Alguns poucos compradores pechinchavam
as sobras. Mangas e tomates espatifados, sacos de pipoca, tampas
de todos os tipos de refrigerante, maços vazios de cigarros,
palitos de picolé sujos de areia e latas de cervejas
misturavam-se pelo chão; alguns ossos mordidos por cães
vadios, bêbados caídos e um sem-número de
pedintes e aleijados, e prostitutas, e menores abandonados,
eram os componentes do maravilhoso quadro que tinha como pano
de fundo um sol moribundo e eternamente lindo. De repente, arma-se
uma confusão dos diabos, um corre-corre: - Pega, pega...
Pega o ladrão! Era Caranguejo, um molequinho de doze
anos. Tinha levado a bolsa de uma senhora que aproveitava o
final da feira, sem aquele alvoroço da manhã.
Rápido como uma lebre, venceu as principais ruas da cidade
feito um bólido, porém, não resistiu à
multidão que se formava atrás dele, e soltou a
bolsa, passou a praça, pulou os trilhos da linha férrea,
e se perdeu no arruado de casas postado à beira do rio.
Escafedeu-se. Branquelo ficou de longe. Sorria. Eram amigos
de cola. Caranguejo fazia alguns serviços pra Branquelo.
Arrumava grana pra maconha, pra ele gastar na noite com as putas.
Em troca, tinha cola e proteção. Caranguejo não
atuava só. Ataques como esse eram esporádicos.
Era chefe de um grupo de pivetes que se concentravam nos vagões
abandonados da Rede Ferroviária para cheirar a essência
da cola. A essência dava coragem. Coragem pra enfrentar
a miséria, a fome, a vida hostil, a sociedade repressora,
e correr, correr das botas, dos capacetes, dos cassetetes. Caranguejo
era assim conhecido porque se apresentava como se há
muito tempo não soubesse o que era um bom banho. Canelas
sujas, braços sujos, cara suja. Um anjo torto. Entrou
numa casa e ficou escondido lá. Por certo, de uma amante
de Branquelo. E lá ficou até que as vozes e os
passos sumissem, até que a perseguição
morresse com a noite. De repente, tudo ficou calmo, e só
um incontável número de bichos da noite começou
a quebrar o silêncio. Caranguejo, então, voltou
ao morro por um atalho. Contornou a cidade, pela linha férrea,
longe das luzes e dos homens de farda, e correu para se desculpar
com seu amigo. Branquelo era legal, não iria ficar com
raiva.
TRECHO DO ROMANCE INACABADO,
Ervas do Campo
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