BRANQUELO

 

Criado por avó, Branquelo sobreviveu numa família marcada pela tragédia. O pai, este ele nunca conheceu. Disparou, ninguém sabe pra onde, assim que sua mãe en-gravidou. A mãe, por sua vez, passou por várias zonas do interior e, enquanto era bonita e atraía os homens, conseguiu alguma coisa. Gente de dinheiro. Vereadores generosos, viajantes, atletas dos times das usinas, pagos unicamente para jogar. Morena viçosa, fresca, sedutora. Acabou numa cama: alcoólatra, verde como um lagarto, cirrótica, tuberculosa. Branquelo ficou com a mãe de sua mãe. O irmão se mandou pra São Paulo. Notícias de algumas pessoas diziam que morreu assassinado, ninguém sabe por quem. O Branquelo não precisou de cigana pra decifrar seu destino. Sua própria realidade era óbvia. Nasceu livre. Nenhum pai, nenhuma mãe, nenhum estado, nenhum país. Só a avó, muito velha e doente para segurá-lo, procurou dar um pouco de freio àquela alma impetuosa. Menino-bicho. Bicho das ladeiras, dos mer-gulhos no açude, sem escola, sem proteção das leis, sem nenhuma lei. A expressão viva da palavra marginal. Marginal numa sociedade que lhe tratava com uma mescla aparentemente paradoxal de desdém e hostilidade.

Trecho do romance inédito ERVAS DO CAMPO
JOCA DE OLIVEIRA


Jocadeoliveira.com© 2006 All Rights Reserved.