BRANQUELO
Criado por avó, Branquelo sobreviveu numa família
marcada pela tragédia. O pai, este ele nunca conheceu.
Disparou, ninguém sabe pra onde, assim que sua mãe
en-gravidou. A mãe, por sua vez, passou por várias
zonas do interior e, enquanto era bonita e atraía os
homens, conseguiu alguma coisa. Gente de dinheiro. Vereadores
generosos, viajantes, atletas dos times das usinas, pagos unicamente
para jogar. Morena viçosa, fresca, sedutora. Acabou numa
cama: alcoólatra, verde como um lagarto, cirrótica,
tuberculosa. Branquelo ficou com a mãe de sua mãe.
O irmão se mandou pra São Paulo. Notícias
de algumas pessoas diziam que morreu assassinado, ninguém
sabe por quem. O Branquelo não precisou de cigana pra
decifrar seu destino. Sua própria realidade era óbvia.
Nasceu livre. Nenhum pai, nenhuma mãe, nenhum estado,
nenhum país. Só a avó, muito velha e doente
para segurá-lo, procurou dar um pouco de freio àquela
alma impetuosa. Menino-bicho. Bicho das ladeiras, dos mer-gulhos
no açude, sem escola, sem proteção das
leis, sem nenhuma lei. A expressão viva da palavra marginal.
Marginal numa sociedade que lhe tratava com uma mescla aparentemente
paradoxal de desdém e hostilidade.
Trecho do romance inédito ERVAS DO CAMPO
JOCA DE OLIVEIRA
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