A PROPOSTA
Uma certa tarde, quase igual a todas as outras tardes de Japaratuba,
um garoto, nervoso e assustado, atravessou a entrada da rua
principal da vila, em velocidade. Empurrou o portão da
sua casa e gritou pela avó, quase pedindo socorro:
– Vó, um homem estranho na rua!...
O homem de preto que entrou na vila cavalgava um cavalo branco.
Não tinha um aspecto, assim, muito assustador, mas era
um tipo sombrio, de um rosto esquisito. Da face macilenta, apontavam
os ossos. Seu corpo esquálido, no entanto, dominava o
cavalo e sabia cavalgar. Levava seu cavalo, lentamente, em direção
ao outro lado da vila, como que determinado por um propósito.
Usava um chapéu também preto, completando a vestimenta.
Os portões das casas da vila se fechavam à sua
passagem. Não era um tipo que atemorizasse, eu falei,
mas, num fim de mundo
daquele, qualquer desconhecido que surgisse na vila, amedrontava.
Dois pescadores que voltavam do mar o reconheceram logo: era
Morte, o pistoleiro mais temível das redondezas. Conhecido
desde a Mata Sul de Pernambuco até as fronteiras de Maceió.
Andava aparentemente só, dizia o povo, no entanto, possuía
mais de quarenta capangas. Quando ia acertar um trabalho, seguia
sozinho até o local, e seu pessoal não encostava,
porém, permanecia pelas redondezas, observando, checando
as coisas, disfarçando para não chamar muito a
atenção da população. O tamanho
do grupo, na verdade, ninguém via ou sabia.
E lá vinha ele, lentamente, semelhante à tarde
morna e deserta.
Minutos depois, o vulto de preto parou em frente da casa do
pai de Zé Gouveia, o Coronel Antônio Gouveia, que
descansava debaixo do alpendre, e se apresentou ao velho:
– “Coroné” Gouveia, é sobre
seu filho! Correm boatos por todo o litoral. Dizem que ele sumiu,
Pernambuco adentro, à procura de um cavalo roubado, de
sua propriedade. De acordo com as últimas notícias,
os ladrões estão se dirigindo para as bandas de
Recife e seu filho seguiu a pista, porém, há dois
meses, nem o Delegado de Barreiros nem os feirantes sabem onde
ele está. Teve até gente que contou ter sido coisa
de outro mundo: o roubo do cavalo na feira de Barreiros. Um
objeto luminoso carregou o cavalo pelos ares... Gente doida!
Eu, como não acredito nessas coisas, vim oferecer meus
serviços para encontrá-lo... Se o senhor me der
um prazo e algum dinheiro, trago seu filho e o cavalo de volta.
Pelo visto, é um corcel de valor...
Mas o Coronel Gouveia era homem de poucas e decisivas palavras:
– Obrigado, Morte, conheço sua fama, mas guarde
seus serviços para outro. Conheço muito meu filho.
Sei que, a qualquer momento, ele vai aparecer... Meus outros
dois meninos estavam com ele na noite do roubo, em Barreiros,
e disseram que Zé resolvera ir atrás do cavalo,
sozinho. Ele é valente, sabe se virar...
Depois da proposta recusada, Morte olhou mais uma vez pro
rosto de Antônio Gouveia, e viu que não adiantava
mais engatar nenhuma conversa. Pegou seu cavalo, cumprimentou
o velho, e sumiu no mundo como veio: silencioso e inesperado.
Foi em direção à Barreira do Boqueirão,
caminho das terras de Porto de Pedras, provavelmente se reunir
com seus capangas, e, depois disso, ninguém nunca mais
ouviu notícias sobre ele.
CAPÍTULO QUARTO de CONFEITO - Esboço de Novela
(Ficção Científica)
JOCA DE OLIVEIRA
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