A MORENINHA

Campina do Barreto – e aqui não vai nenhuma discriminação àquele lugar – é um subúrbio aguado! Gente parada nas portas, gente olhando a rua sem nenhum objetivo, moleques sujos de olhares vivos e um campo aberto e modorrento de figuras esparsas, frias e desalinhadas na tarde quente. Ah, mas aquele deserto tem um oásis! A beleza daquele lugar?... Ah, a beleza daquele lugar é uma moreninha de cabelos encaracolados – tipo bem louquinho – que pega o ônibus de quatro e meia da tarde, e se dirige à cidade para passear: bocona vermelha, olhos mornos e pele morena! Menina pra mexer com a cara séria do pretenso capitão da esquina, aposentado e sentado numa cadeira de balanço, tomando um arzinho. É doce, a danada! Não dá bola pra ninguém! Joelho de deusa esculpida e seios recém-nascidos. A bunda é um mar, e as coxas, um areal. A saia faz questão de estar ali, guardiã, rindo dos otários. E eu, canário triste, mocho, observador ferrenho, vivo a ensaiar versos a seu corpo. A molecada assovia, mexe, grita, chora, canta... estrebucha de tanto desdém, e ela nem, nem... nem aí! Altaneira, a bruguela! Sabedora de sua beleza. Não precisa nem olhar para sentir os olhos do poeta em sua carne. Sábia. Dose de malícia e mistério. Vai, talvez, deitar sua pérola a algum porco. Ingrata, nem vê minha triste figura caminhando à procura de um bar. A moreninha da Campina do Barreto nem sabe que eu existo. Por vingança, eu também não conto que estou escrevendo um conto só para ela!

JOCA DE OLIVEIRA (Caos nº 5, Abril de 1998)



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