HISTÓRIAS DE VÓ NANAÍRA


1. O CAVALO BRANCO
Para Juninho e Clarissa

Quando eu estava nos meus catorze anos, havia no sítio de meu pai um cavalo muito bonito. Gordo, grandão, todo branco feito o cavalo de São Jorge. Papai tinha muito carinho pelo cavalo, apesar dele ser arisco para algumas pessoas e bastante dócil para outras. Comigo, nunca tive problemas em montá-lo. Papai me deixava tocá-lo e ele me recebia muito bem. Dava só aquele barrufo de cortesia na minha face de menina. Quando eu cavalgava no grandão, ele se enchia de alegria e saía me levando do sítio afora, calmamente, vencendo as campinas, descendo os barrancos, margeando o riacho, por dentro d’água, trotando pelo raso. Às vezes, disparava até o caminho da praia, através dos coqueiros. Sempre, nesses passeios, papai me acompanhava montado em outro cavalo. Em outros, meu irmão, Doda, era quem fazia o ofício de batedor. Quando o passeio, com meu irmão, durava uma manhã, ou uma tarde toda, papai me esperava com uma exclamação:
- Essa menina parece a cumade fulôzinha!

Eu, como bom ouvinte, estava ali, sempre de ouvidos atentos:
- Por que, Vó Nanaíra, seu pai a comparava com a cumade fulôzinha?

- Joãozinho, você parece que nem viveu no interior. Sei, sei...foi muito cedo pro internato. Veja só. Segundo a lenda, cumade fulôzinha é a protetora das matas. Quando ela não gosta de algumas pessoas e do que elas fazem com a floresta, ela troca os caminhos, endoida os caçadores, faz o indivíduo se perder na mata, rouba os cachimbos das véias cachimbeiras que vão à mata buscar lenhas, e, quando a procuram, quando tentam caçá-la, ela sempre foge, muito rápida, em cima de um cavalo muito veloz... entendeu, agora?

(Depois da explicação de quem era e o que fazia o mito, Vó Nanaíra continuava a narrativa).

Pois bem, Joãozinho, acontece que este cavalo tão dócil para mim e que não estranhava nem meu Pai, nem meu irmão, virava uma fera quando via minha irmã, Madalena. Madá não podia passar perto do cavalo, que ele logo se tornava inquieto, a ponto de levantar as patas e relinchar, relinchar, relinchar, até que alguém a retirasse de perto dele. Houve momentos em que ele quase quebrou a cerca. Não que Madalena fosse antipática ou não gostasse de cavalos. Ao contrário, era uma jovem de quase dezoito anos extremamente bela e sensível. Adorava animais. Daí a razão de ninguém entender o comportamento do animal diante dela. O povo da aldeia, muito supersticioso, ao ouvir os comentários dos peões nos botecos, achava que Madalena tinha parte com as bruxas. Inventavam que ela era muito bonita, porém, muito estranha. Que encantava os cavalos. E foi assim, ao longo dos comentários, que minha querida irmã chegou a adoecer. Madalena foi acometida de uma doença mal conhecida, naqueles tempos de medicina atrasada, e, infelizmente, depois de poucas semanas, faleceu.
Os dias após o enterro se passaram tristes dentro do sítio. Ninguém quase saía mais. O cavalo branco, para surpresa nossa, nunca mais foi o mesmo. Nunca mais deixou ninguém montar nele. Foi deixando de comer. Ficava melancólico, ao pé da cerca, sempre de cabeça baixa. Até que, um certo dia, apareceu um comprador e papai resolveu vendê-lo. Nunca mais soubemos do cavalo branco. O povo da aldeia, a partir daquele instante, criou na imaginação uma explicação para o fato. Achavam que o espírito de um jovem apaixonado que viveu naquelas bandas e que, por conta de uma traição, havia morrido de amor, teria se apossado do cavalo, e ele via em Madalena a amada que um dia fora seu objeto de desejo, sua paixão.
- E aí, vó, a senhora acredita nisso?
- O povo fala demais, Joãozinho. Eu contei a história verdadeira. Já o povo, o povo tem uma imaginação muito fértil!

JOCA DE OLIVEIRA


2. A REZA DO JUSTICEIRO

Naquela época de meus pais muito jovens, assim conta o povo, havia um “nêgo” matador, semelhante aos justiceiros de hoje. O povo afirmava que esse tipo possuía mais de trinta mortes nas costas. De encomenda, por simples vingança e até por ele não ter gostado do olhar que algum indivíduo, sem razão aparente, lhe havia lançado. Era Severino Tibúrcio, do Engenho Santa Rosa. Era o boitatá da região, o pantel, o homem mais temido por aqueles lugarejos atrasados de minha meninice. Pois bem, era famoso, entre a população da cidade vizinha àquele engenho, e corria, também, entre os moradores de outros engenhos, o boato de que o nego Tibúrcio se encantava (quando cometia um crime e a polícia lhe saía no encalço, toda equipada com o que podia no momento). De que ele havia aprendido, não se sabe com quem, rezas fortes que o transformavam num tronco de árvore, num bicho do mato, numa sombra, num garrancho mergulhado até metade dentro do rio. Meu irmão, Doda, que eu sempre achei um rapaz muito esperto, dizia não acreditar nessas conversas. Ele afirmava que sempre houve senhores de engenho naquelas terras que acoitavam criminosos quando estes eram trabalhadores ou capangas daqueles mandantes. A polícia passava e eles: – Gente, não vimos o homem. Sumiu. Doda achava que a maioria das mortes atribuídas a Tibúrcio eram encomendas dos próprios senhorios. Estes, quando sabiam pelas conversas dos trabalhadores que alguém estava fazendo planos – geralmente pequenos agricultores – que poderiam atrapalhar seus negócios, invariavelmente ordenavam a remoção do obstáculo. Esse sempre foi o pensamento de Doda.

Bom; o caminho do homem violento nunca deu semente que prestasse. Pois foi que, um dia, Tibúrcio assassinou o trabalhador Aderaldo, na frente do filho do coitado. O menino se chamava Israel e era quem ajudava o pai na pequena lavoura que crescia bonita ao lado da humilde casa daqueles simples agricultores. Acontece que, depois do crime, Israelzinho nunca mais foi o mesmo. Cresceu e tornou-se rapazinho calado, esquisito. Acordava com pesadelos enormes, brigando com onça, com jacaré, com cobra d´água e, às vezes, a mãe contava, até com demônios da mata. Nunca mais dispensou a peixeira nos quartos. Tinha um olhar sério, às vezes sombrio, para um menino de dezesseis anos.

Minha gente, num domingo de feira na cidade, com uma ou outra Rural e pequenos caminhões conduzindo o povo para o centro, Tibúrcio teria o seu dia de desencanto. Cometeu um erro gravíssimo para um matador experiente como ele. Entrou no mercado, sentou num boteco, e encheu a caveira. Bebeu até não agüentar mais. Depois, saiu cambaleante e foi se sentar num banco da praça, em frente ao mercado. Ninguém encostou, sabiam da fama do homem. Só Israelzinho olhava, da esquina, calado. Não demorou dez minutos, e o menino foi se aproximando, devagarzinho, do local onde se encontrava Tibúrcio e, ao chegar perto do sacripanta, fez uma pergunta corajosa: É o senhor o matador Tibúrcio?!... A voz engrolada de Tibúrcio, esforçando-se para dizer algo, iria parar ali. Israelzinho aproximou-se do banco, tirou sua faca-peixeira e cravou no peito de Tibúrcio. Por afronta, deixou-a enterrada no peito do infeliz. Depois, correu até a esquina, montou em seu cavalo e se perdeu no mundo. Seu Aderaldo estava vingado.



3. ACERTANDO NO BICHO

Muito antes do surgimento das grandes filas nas casas lotéricas, onde a população, principalmente a pobre, se concentra, no começo da semana, para as apostas da Mega, da Sena e outros jogos, o jogo do bicho encantava a cabeça de muita gente que almejava enriquecer da noite pro dia, lá, na terra onde a gente morava. Não é só de hoje. Jogar no bicho é do tempo de Dom Pedro do Cipó-Pau. Meu primo, o Elias, corria, de engenho a engenho, naquela época, com cinco cadernetas de pules, cantando o povo das circunvizinhanças para apostar no bicho. Elias era esperto demais. Às vezes, passávamos dois três dias sem o resultado do jogo. De repente, lá vem Elias fazendo novas apostas. Elias, e o resultado anterior?Deu cobra, deu macaco. Ninguém ganhou! Mais tarde, já casado com uma prima, confessou: - Teve dia que fiquei com o valor do prêmio. Pouca gente reclamava. As distâncias favoreciam o malandro.

Quando fiz dezesseis anos, meu pai me entregou a um cidadão de outro engenho. Eu não queria. Sabia que muita gente casava mais cedo, porém, nunca me conformei com esse acordo. O homem era muito mais velho do que eu. Passei três meses sem falar com meu marido, depois do arranjado. O desejo de libertação vive em mim até hoje, já casada pela segunda vez, cheia de filhos e netos, e viúva do primeiro. O intuito era fugir, arranjar um dinheiro e me mandar pra São Paulo. Esse dia jamais veio. Mas que tentei, tentei. Eu era uma menina livre e cheia de vida, nunca iria me acostumar àquela prisão.

Naquele tempo, isolado de todos, vivia numa cabana, perto da beira do rio, um preto velho que, contava o povo, fazia adivinhação. Era José Virgílio. As pessoas diziam que ele adivinhava o bicho que iria premiar quem tivesse a coragem de caminhar com ele até uma certa encruzilhada, onde, por força de muita reza, o cidadão acabava vendo o bicho do próximo jogo. A vontade de jogar no bicho, ganhar muito dinheiro e fugir, me fez procurar o velho. Dona Moça, seu marido e seu pai sabem disso? Meu marido vai consentir. Ele não tem coragem, mesmo!... Eu tenho!

Com muita dificuldade, meu primeiro marido finalmente concordou que eu fosse com o preto velho até essa “bendita” encruzilhada. Contudo, me fez vestir roupa de homem, com chapéu e tudo, como disfarce. Meu cabelo, naquela época, chegava perto da bunda, e eu tive de enrolar e cobrir com um chapéu para que ninguém soubesse que era uma mulher. E assim foi que, perto do anoitecer, antes das seis horas da noite, José Virgílio começou a me orientar para o ritual. Ele iria à minha frente, quase dez metros de distância, com um livro preto nas mãos (não era a Bíblia, minha gente), e eu o acompanharia até o local determinado por ele, onde apareceria o bicho do jogo de amanhã. O homem tinha um rosário de rezas esquisitas, das quais eu só decifrei a Salve, Rainha! Saiu pelo caminho da floresta, passou por uma pinguela, seguiu, seguiu, seguiu (e eu atrás do homem), até quando começou a anoitecer. Pois não foi que, perto da encruzilhada, bem pertinho das seis horas, apareceu aquele vulto do tamanho de um urso, porém não era um urso. Estava embaixo da mangueira. Era um cachorro preto. Um bicho daquele tamanho eu jamais havia visto em minha vida. Depois disso, eu não lembro de mais nada. O povo disse que eu desmaiei e alguns trabalhadores dos engenhos que passavam por ali me trouxeram em casa.

Fiquei tão arrependida e pedi tanto a Deus que me perdoasse por aquele dia que, acredito, hoje, Ele já me redimiu. Ainda assim, por curiosidade, eu contei a Dona Alice e a Seu Raimundo, que sempre apostavam no bicho. Coisa pouca. Eu mesma fiz uma fezinha pequena, no dia posterior ao desmaio. Pois não é que deu cachorro na cabeça. Não tive coragem. Meu marido foi buscar o dinheiro do bicho premiado e se embebedou no barracão. Foi melhor assim. Gastou tudo com os amigos, e eu jamais reclamei esse dinheiro.



4. HOMENS E MULHERES DA FAMÍLIA

O preconceito contra as mulheres é bíblico. Meu segundo sogro afirmava: “Mulher é feito carrapato, com tudo se apega”. Já o velho, meu pai, não gostava quando alguma filha namorava um negro. Eu nunca entendi a razão. Papai era um homem de feições grosseiras; um mulato feio, de cabeça de bagre. Teve, no entanto, a felicidade de casar com uma moça linda. Branca, de olhos claros, de bom coração: minha mãe. Nada daquilo, porém, me impedia de namorar quem eu bem quisesse. Quando fiquei viúva de meu primeiro marido, namorei um jovem trabalhador das terras de meu pai. Às escondidas. Anselmo. Quando eu me determinava a algo, fazia por obediência ao meu coração. Quando tomava a responsabilidade de mãe, entretanto, cumpria meu papel como estava escrito. Aquele rapaz foi a grande paixão da minha vida. Era mulato. Um dia, deixou o engenho e nunca mais voltou.
Com a morte de meu primeiro marido, meu pai andava desconfiado de minhas escapulidas. Vivia dizendo que não era bom uma filha dele envelhecer sozinha. Minhas duas irmãs, Maria e Berenice, continuavam casadas, e sentiam inveja da minha segunda solteirice. Nunca desaprovaram meus namoros. Naquela época, Doda, meu irmão, já era homem feito. Jamais casou. Vivia pelo mundo, arrumando um emprego aqui, outro ali. Às vezes, passava um ano fora do engenho. De repente, a notícia chegava aos ouvidos de meus pais:
- Doda tá na cidade!
Com dois três dias, gastava toda a indenização que recebera, de alguma empresa, com os amigos e as raparigas do cabaré de Teresa Pinto. Toda vez era isso. A cada volta, o coração de mamãe ficava mais fraco. Era o único filho homem, e de quem ela mais gostava. Quando chegava “em casa”, vinha rasgado, sujo de lama, de vômitos e, quase sempre, com marcas de briga. Outro dia, foi o Delegado Marcão quem o trouxe. Aquilo era um martírio para minha mãe, Dona Laura. Ficava repetindo pelos cantos da casa:
- Bebo é uma derrota!
As casas de minhas irmãs não ficavam longe, e assim, quando sabiam da notícia, elas se reuniam e se juntavam a mim para cuidar de Doda. Dávamos banho, aparávamos a barba, traziam roupas dos maridos para ele. Ficava um mês ou dois naquela restauração. Até ajudava papai na condução do engenho... Daria um bom capataz. Era trabalhador e amigo dos trabalhadores:
- Doda, me conta de São Paulo. Tem muita mulher bonita?...
- Doda, tem jogo domingo contra o Engenho Flechas de Cana!...
- Doda, aquele filho de Mariinha do cabaré é teu! É a tua cara, cabra véio!...
Papai assumiu a guarda do suposto filho de Doda, depois que a mãe morreu. Parecia realmente com ele, em tudo. Até o jeito despranaviado de ser. Quando o menino não estava doente, o quintal era pequeno para ele. Bulia com as galinhas, corria atrás dos porcos, chutava Catita, um cachorrinho magro que tinha na casa, e ainda me dava o prejuízo de ter que dar banho, trocar de roupa e levá-lo pra escola, na cidade. Levar e ir buscar!

Dessa última vez, Doda ficou em casa por bastante tempo. Ficou até quando me casei, pela segunda oportunidade, com um rapaz da cidade, que conheci na festa de São Sebastião. Depois da festa, Doda pegou Lucas, seu filho, botou debaixo do braço e se mandou. Mora, hoje, no sertão do Pajeú, com uma mulher. Amigou-se. Ela lhe deu duas filhas lindas e ainda cuida do filho dele. Doda virou comerciante, e eu me tornei dona de casa, de novo.


5. ÁGUA PRO NETINHO...

De volta à vida de casada, minha mãe me ensinou alguns procedimentos de vida que me foram essenciais, naquela época, apesar de rudimentares. Como meu primeiro marido não me deu filhos e me afastava muito da companhia de minha família, comecei, logo após o segundo casamento, a contar para mamãe algumas experiências novas que eu estava passando e procurava me aconselhar com ela quando encontrava dificuldades. Não existia nenhuma reserva. Quando engravidei pela primeira vez, eu contei para ela que o bebê mexia muito na barriga, à noite, e que aquilo me incomodava muito. Por vários dias, estive bastante inquieta e sem conseguir dormir. O bebê parecia uma bola, pra lá e pra cá. Ela me falou que, nessas horas, eu procurasse o calor do corpo do pai. Dito e feito, na noite seguinte, quando da primeira ameaça de traquinagem do bebê, abracei o corpo do meu marido, e o bebê num instante ficou quietinho,quietinho...

Nos primeiros meses de vida do Eduardo, começaram a aparecer pequenas brotoejas no seu rostinho. Mamãe falou que eu procurasse evitar o mundo todo de beijar e cheirar o bebê a toda hora e a todo instante. Que passasse fios do meu cabelo pelo rosto dele. A primeira medida preventiva, claro, era uma primitiva lição de higiene, porém, a segunda, nada mais era que uma das inúmeras simpatias que nossas avós vêm passando de geração a geração.

Agora, quando relembro esses momentos de agonia e felicidade, me ponho a rir. Até do fato que ocorreu nos primeiros dias de vida do Eduzinho. O menino, mesmo amamentado todos os dias, não parava de chorar. Fiquei bastante preocupada, pois, não sabia a razão de tanto choro. Fiz uma consulta à velha medicina da mamãe. A mamadeira daquela época era de vidro. Mamãe pegou da mamadeira, fez um chazinho de erva-doce e deu ao bebê, porém o bichinho continuava a chorar. Ela olhou, olhou e, de repente, se virou para mim como se estivesse na banheira de Arquimedes:
– Ô, menina, você vem dando água ao bebê?...
– Mãeee!.... – Respondi com uma negativa no rosto.
Aí ela diagnosticou na hora o motivo do choro:
– Você quer matar o menino de sede, criatura?!...
Imediatamente eu lavei a mamadeira, enchi de água e dei ao meu filhote. O menino bebeu tanta água que adormeceu. Teve o primeiro sono tranqüilo da sua vida. Parecia um anjo.


6. DEUS NÃO ME FEZ HOMEM

Tem gente que demora a amadurecer, aí, algumas coisas na vida acontecem para nos envelhecer com mais rapidez. Vem o inesperado e quebra uma parte da vida da gente como se esta fosse de vidro... O carro preto passou duas vezes pela rua onde moro. Eu já estava morando na cidade. Circulou como circula o urubu quando vê carniça. Geralmente, quando vejo um carro da polícia vagando pela rua onde moro, eu fecho logo as portas, principalmente se for à noite. Nada contra a instituição, mas nunca tive simpatia pela polícia, desde o tempo de pequena. Tem idéias que entram na sua cabeça e você não consegue tirá-las de lá por dinheiro nenhum. No muro, final da rua, onde a molecada se concentra, à noite, pra jogar conversa fora, havia três rapazes. Não havia mandado, não houve revista, e os policiais já desceram do carro atirando. Infelizmente, todas as balas pegaram no meu sobrinho. Só fui ver porque bateram na porta de minha casa e comunicaram o ocorrido. Não quis acreditar que meu sobrinho estivesse envolvido com drogas, e não estava. Foi pego enganado. Confundiram-no com um sujeito que havia praticado vários assaltos na redondeza e ainda trazia maconha do sertão para distribuição na cidade. Vi o sangue no muro e o corpo do garoto estirado. Não corri como uma louca pelas ruas da cidade, porque, apesar de Deus não me ter feito homem, ainda sei segurar certa carga de sofrimento que nos aparece de vez em quando. O grito de indignação, jamais! Muita gente sabia quem atirou, porém, ninguém nunca quis testemunhar contra ele.

Enterramos o menino. Ajudei minha irmã e o pai dele na preparação. Meus pais me ajudaram muito também, porque, certas horas, é impossível você não chorar. A dor de enterrar um filho, ou gente mais nova do que a gente, marca pro resto da vida. No velório, para aumentar a dor, o policial que cometeu o “erro” me veio pedir desculpas. Não teve coragem de encarar os pais do garoto. Eu pedi pra ele se retirar da casa. Aquilo era demais pra família, minha gente! Agora eu sei o porquê de Deus não me ter feito um bicho-homem. Aquele caboclo não teria saído vivo do velório. Nossos pais nos pediram cautela e resignação, e só o tempo se encarregou de estancar aquele gosto de sangue na boca..

Hoje, ainda vejo o carro preto circulando livremente pelas ruas da cidade, com os vidros escuros que o povo chama de fumê. Porém, eu guardo a certeza de que é ele que vai ali dentro. Sem remorso nenhum. Que gente desse tipo não guarda remorso... Ou guarda?...

O tempo passa e, em alguns dias, pareço compreender a razão pela qual Deus entendeu de me fazer mulher, e mulher sem aquele espírito guerreiro da Joana D’arc. Outros, eu fico realmente duvidando se os deuses ficam satisfeitos quando a gente consegue assistir a certos acontecimentos, calados, e sem nenhum poder de reação.



7. AS FONTES DA ADIVINHAÇÃO

No engenho onde a gente morava, se acordava muito cedo para as tarefas do dia. Os trabalhadores atravessavam a ponte de ferro, para o outro lado do rio, onde ficavam as plantações de cana. Levavam, lá de casa, garrafas de vidro, canecas, latas de flandres cheias de café e marmitas com os almoços prontos.Eu e Doda cuidávamos dos animais. Doda saía para liberar os cavalos e os bois das suas cocheiras e soltava os bichos para a pastagem no campo aberto. Eu tratava da pocilga. Antes, porém, ordenhava as cabras leiteiras e colhia os ovos das galinhas poedeiras. Na pocilga, eu colocava uma dosinha de creolina na água, parar tirar o mau cheiro do mijo e, também, das fezes dos porcos. Éramos bem jovens, porém, papai já nos queria trabalhando: - Os passarinhos não devem nada a ninguém e, cinco da manhã, estão assoviando na porta de casa. Já estão na luta, à procura de comida! – repetia meu velho pai quase todo dia. Mamãe, minha avó, Inês, e Mira, a empregada, ficavam cuidando das coisas da cozinha. Na volta pro café, Doda sempre vinha com uma novidade:
- Os anuns brancos hoje estavam muito agitados. Canto rouco, mãe.
- Estavam adivinhando chuva. – Advertia minha vó, Dona Inês.

Por outro lado, minha irmã, Berenice, parecia uma princesa. Não gostava de trabalhar e dormia até tarde. Meus pais pelejaram muito com ela, e acabaram desistindo. Foi um alívio quando ela casou com um rapaz de outro engenho. Outro dia, quando a gente voltava de uma visita a casa dela, avistamos muitos urubus sobrevoando o engenho do Coronel Dioge. Minha vó adivinhava: - Um é gosto; dois é desgosto; três é carta; quatro é convite; cinco é encontro, e seis é desgraça!

Uma vez, em casa, eu relembrei pra minha vó: - Ô, vovó, mais de seis urubus é desgraça que vai acontecer, é? Dona Inês me alertou: - Minha filha, não fale esse nome feio dentro de casa, não, que chama coisa ruim! Era sempre assim. Vovó sempre tinha um repertório de superstições para explicar os pequenos mistérios da vida. A ave chamada “lavandeira” era tida como sagrada para ela. Não queria que Doda usasse o “badoque” contra ela. Vovó contava que Nossa Senhora, quando deu à luz a Jesus Cristo, as “lavandeiras” pegavam os panos sujos pelos biquinhos, molhavam na água para lavá-los, e entregavam limpinhos aos pés da Virgem. Doda tinha um respeito tão grande por esse pássaro, que não deixava nenhum menino da “requinha” dele encostar nos bichinhos: - Vovó disse que essa ave é de Nossa Senhora, não pode bulir!

Vovó teve uma vida extraordinária. Ela tinha muito medo de dias chuvosos, daqueles com raios e trovões. Ficava recolhida no quarto, apegada com um rosário e a imagem de Santa Bárbara. Comentava que, se alguém visse um raio caindo em campo aberto, a quantidade, em metros, do buraco aberto na terra, seria o número de anos que a pessoa ainda viveria. Se o raio caísse em cima de uma árvore, alguém da casa mais próxima àquela árvore morreria.

Coincidência ou não, minha gente, quando vovó adoeceu, choveu muito naquela noite. Por essa razão, os caga-fogos não apareceram para iluminar o quintal. Ficou quase todo mundo de vigília e poucos conseguiram dormir Pois, nem bem amanheceu o dia, os trabalhadores já cercavam uma árvore, em frente da casa, que foi atingida por um raio. Doda saiu a cavalo para procurar o médico, porém, o meu olhar não se desgarrava daquela árvore partida ao meio, como se algo colossal tivesse desfechado um golpe com um machado gigantesco.

Depois de uma semana de sofrimento, vovó veio a falecer. Entretanto, o que mais me impressionou durante os dias em que vovó permaneceu acamada, foi vê-la secando na cama, dentro do quarto, e, lá fora, a árvore atingida pelo raio também secando, ao relento. Acaso ou fatalismo, termino com tristeza a historinha, lembrando que, no dia em que vovó deu o último suspiro, a árvore no pátio em frente de casa estava totalmente seca.

8. AJUDANTE DE PARTEIRA.

Aprendi com minha avó a arte das parteiras e, sem falsa modéstia, ajudei a salvar algumas vidas A maioria, gente pobre. Joana, nossa vizinha, deu à luz no terreiro feito uma porca. O menino sujo de areia e sangue. Foi um sacrifício. Vovó foi chamada às pressas e eu, como sempre, correndo atrás dela. Precisamos de muita água limpa e os panos todos da cozinha... Minha irmã também teve um parto difícil. Encontrei-a quase desmaiada e achando que ia morrer. Eu olhei para ela e disse: “Berenice, você está tendo um filho e precisa de ajuda”. Vovó novamente chegou às pressas. O menino nasceu com lábios leporinos. Anos mais tarde, morando na cidade, alguém me informou que a sífilis era a causadora daquele mal. Vovó brigava e afirmava que a causa do menino ter nascido daquele jeito, foi o fato da mãe, quando grávida, ter guardado as chaves da casa entre os seios. ‘Minha filha, quando estiver grávida e for sair para algum lugar, deixe as chaves com uma vizinha de confiança’, dizia. Vovó purificou o sangue de muitos maridos com essa história. A palavra dela era um dogma.

Quando o menino nascia laçado, ela dizia que a causadora era a mãe, que não sabia amarrar direito algum animal criado em casa, e se enroscava nas cordas. Contudo, o mais interessante em vovó como parteira, era seu estudo sobre o cordão umbilical: primeiro, ela aconselhava sarar o umbigo do recém-nascido com o pó do pipiri torrado. Pipiri é uma planta usada na fabricação de esteiras. Você pegava uma fibrazinha daquela, botava no fogo para torrar, e, com o pozinho obtido, colocava no umbigo do menino. No outro dia, aquela parte pendente do cordão umbilical caía, e o umbigo amanhecia fechadinho. Depois, não se jogava fora aquela parte do umbigo. Era preciso alguns cuidados. Por exemplo, se ele caísse no fogo, ela dizia, o menino poderia morrer queimado ou se acidentar em algum incêndio; por outro lado, se o umbigo fosse jogado na água, o menino jamais morreria de afogamento. Contudo, se a mãe quisesse que o menino crescesse e fosse um homem trabalhador, ela teria que plantar o umbigo num roçado. E, se por azar, o restinho do umbigo fosse comido pelos ratos, o jovem poderia se tornar um futuro ladrão. Eram crendices que acompanhavam a vinda de muitos infelizes a este mundo de meu Deus. Todas com a assinatura da minha avó, que tinha, naquela época, nas vizinhanças, uma autoridade de cartório.

Ah, ia me esquecendo de uma coisa: o como fazer para resolver situações em que o menino ficasse preso na barriga da mamãe. Vovó recomendava pisar quatro pimentas do reino, jogar dentro de uma xícara de café e acrescentar uma colher de sopa de manteiga caseira. Ela mexia a mistura, coava a borra da pimenta e dava à gestante. Era um “facilitamento”. Segundo vovó, o menino se despregava das paredes internas da buchuda, sem a necessidade e a brutalidade dos fórceps, e escorregava tranqüilo para a luz, cumprir sua história.

Hoje, é cada mulato forte, bonito, e eu digo, que saudade da medicina da vovó!


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