HISTÓRIAS
DE VÓ NANAÍRA
1. O CAVALO BRANCO
Para Juninho e Clarissa
Quando eu estava nos meus catorze anos, havia no sítio
de meu pai um cavalo muito bonito. Gordo, grandão, todo
branco feito o cavalo de São Jorge. Papai tinha muito
carinho pelo cavalo, apesar dele ser arisco para algumas pessoas
e bastante dócil para outras. Comigo, nunca tive problemas
em montá-lo. Papai me deixava tocá-lo e ele me
recebia muito bem. Dava só aquele barrufo de cortesia
na minha face de menina. Quando eu cavalgava no grandão,
ele se enchia de alegria e saía me levando do sítio
afora, calmamente, vencendo as campinas, descendo os barrancos,
margeando o riacho, por dentro d’água, trotando
pelo raso. Às vezes, disparava até o caminho da
praia, através dos coqueiros. Sempre, nesses passeios,
papai me acompanhava montado em outro cavalo. Em outros, meu
irmão, Doda, era quem fazia o ofício de batedor.
Quando o passeio, com meu irmão, durava uma manhã,
ou uma tarde toda, papai me esperava com uma exclamação:
- Essa menina parece a cumade fulôzinha!
Eu, como bom ouvinte, estava ali, sempre de ouvidos atentos:
- Por que, Vó Nanaíra, seu pai a comparava com
a cumade fulôzinha?
- Joãozinho, você parece que nem viveu no interior.
Sei, sei...foi muito cedo pro internato. Veja só. Segundo
a lenda, cumade fulôzinha é a protetora das matas.
Quando ela não gosta de algumas pessoas e do que elas
fazem com a floresta, ela troca os caminhos, endoida os caçadores,
faz o indivíduo se perder na mata, rouba os cachimbos
das véias cachimbeiras que vão à mata buscar
lenhas, e, quando a procuram, quando tentam caçá-la,
ela sempre foge, muito rápida, em cima de um cavalo muito
veloz... entendeu, agora?
(Depois da explicação de quem era e o que fazia
o mito, Vó Nanaíra continuava a narrativa).
Pois bem, Joãozinho, acontece que este cavalo tão
dócil para mim e que não estranhava nem meu Pai,
nem meu irmão, virava uma fera quando via minha irmã,
Madalena. Madá não podia passar perto do cavalo,
que ele logo se tornava inquieto, a ponto de levantar as patas
e relinchar, relinchar, relinchar, até que alguém
a retirasse de perto dele. Houve momentos em que ele quase quebrou
a cerca. Não que Madalena fosse antipática ou
não gostasse de cavalos. Ao contrário, era uma
jovem de quase dezoito anos extremamente bela e sensível.
Adorava animais. Daí a razão de ninguém
entender o comportamento do animal diante dela. O povo da aldeia,
muito supersticioso, ao ouvir os comentários dos peões
nos botecos, achava que Madalena tinha parte com as bruxas.
Inventavam que ela era muito bonita, porém, muito estranha.
Que encantava os cavalos. E foi assim, ao longo dos comentários,
que minha querida irmã chegou a adoecer. Madalena foi
acometida de uma doença mal conhecida, naqueles tempos
de medicina atrasada, e, infelizmente, depois de poucas semanas,
faleceu.
Os dias após o enterro se passaram tristes dentro do
sítio. Ninguém quase saía mais. O cavalo
branco, para surpresa nossa, nunca mais foi o mesmo. Nunca mais
deixou ninguém montar nele. Foi deixando de comer. Ficava
melancólico, ao pé da cerca, sempre de cabeça
baixa. Até que, um certo dia, apareceu um comprador e
papai resolveu vendê-lo. Nunca mais soubemos do cavalo
branco. O povo da aldeia, a partir daquele instante, criou na
imaginação uma explicação para o
fato. Achavam que o espírito de um jovem apaixonado que
viveu naquelas bandas e que, por conta de uma traição,
havia morrido de amor, teria se apossado do cavalo, e ele via
em Madalena a amada que um dia fora seu objeto de desejo, sua
paixão.
- E aí, vó, a senhora acredita nisso?
- O povo fala demais, Joãozinho. Eu contei a história
verdadeira. Já o povo, o povo tem uma imaginação
muito fértil!
JOCA DE OLIVEIRA
2. A REZA DO JUSTICEIRO
Naquela época de meus pais muito jovens, assim conta
o povo, havia um “nêgo” matador, semelhante
aos justiceiros de hoje. O povo afirmava que esse tipo possuía
mais de trinta mortes nas costas. De encomenda, por simples
vingança e até por ele não ter gostado
do olhar que algum indivíduo, sem razão aparente,
lhe havia lançado. Era Severino Tibúrcio, do Engenho
Santa Rosa. Era o boitatá da região, o pantel,
o homem mais temido por aqueles lugarejos atrasados de minha
meninice. Pois bem, era famoso, entre a população
da cidade vizinha àquele engenho, e corria, também,
entre os moradores de outros engenhos, o boato de que o nego
Tibúrcio se encantava (quando cometia um crime e a polícia
lhe saía no encalço, toda equipada com o que podia
no momento). De que ele havia aprendido, não se sabe
com quem, rezas fortes que o transformavam num tronco de árvore,
num bicho do mato, numa sombra, num garrancho mergulhado até
metade dentro do rio. Meu irmão, Doda, que eu sempre
achei um rapaz muito esperto, dizia não acreditar nessas
conversas. Ele afirmava que sempre houve senhores de engenho
naquelas terras que acoitavam criminosos quando estes eram trabalhadores
ou capangas daqueles mandantes. A polícia passava e eles:
– Gente, não vimos o homem. Sumiu. Doda achava
que a maioria das mortes atribuídas a Tibúrcio
eram encomendas dos próprios senhorios. Estes, quando
sabiam pelas conversas dos trabalhadores que alguém estava
fazendo planos – geralmente pequenos agricultores –
que poderiam atrapalhar seus negócios, invariavelmente
ordenavam a remoção do obstáculo. Esse
sempre foi o pensamento de Doda.
Bom; o caminho do homem violento nunca deu semente que prestasse.
Pois foi que, um dia, Tibúrcio assassinou o trabalhador
Aderaldo, na frente do filho do coitado. O menino se chamava
Israel e era quem ajudava o pai na pequena lavoura que crescia
bonita ao lado da humilde casa daqueles simples agricultores.
Acontece que, depois do crime, Israelzinho nunca mais foi o
mesmo. Cresceu e tornou-se rapazinho calado, esquisito. Acordava
com pesadelos enormes, brigando com onça, com jacaré,
com cobra d´água e, às vezes, a mãe
contava, até com demônios da mata. Nunca mais dispensou
a peixeira nos quartos. Tinha um olhar sério, às
vezes sombrio, para um menino de dezesseis anos.
Minha gente, num domingo de feira na cidade, com uma ou outra
Rural e pequenos caminhões conduzindo o povo para o centro,
Tibúrcio teria o seu dia de desencanto. Cometeu um erro
gravíssimo para um matador experiente como ele. Entrou
no mercado, sentou num boteco, e encheu a caveira. Bebeu até
não agüentar mais. Depois, saiu cambaleante e foi
se sentar num banco da praça, em frente ao mercado. Ninguém
encostou, sabiam da fama do homem. Só Israelzinho olhava,
da esquina, calado. Não demorou dez minutos, e o menino
foi se aproximando, devagarzinho, do local onde se encontrava
Tibúrcio e, ao chegar perto do sacripanta, fez uma pergunta
corajosa: É o senhor o matador Tibúrcio?!... A
voz engrolada de Tibúrcio, esforçando-se para
dizer algo, iria parar ali. Israelzinho aproximou-se do banco,
tirou sua faca-peixeira e cravou no peito de Tibúrcio.
Por afronta, deixou-a enterrada no peito do infeliz. Depois,
correu até a esquina, montou em seu cavalo e se perdeu
no mundo. Seu Aderaldo estava vingado.
3. ACERTANDO NO BICHO
Muito antes do surgimento das grandes filas nas casas lotéricas,
onde a população, principalmente a pobre, se concentra,
no começo da semana, para as apostas da Mega, da Sena
e outros jogos, o jogo do bicho encantava a cabeça de
muita gente que almejava enriquecer da noite pro dia, lá,
na terra onde a gente morava. Não é só
de hoje. Jogar no bicho é do tempo de Dom Pedro do Cipó-Pau.
Meu primo, o Elias, corria, de engenho a engenho, naquela época,
com cinco cadernetas de pules, cantando o povo das circunvizinhanças
para apostar no bicho. Elias era esperto demais. Às vezes,
passávamos dois três dias sem o resultado do jogo.
De repente, lá vem Elias fazendo novas apostas. Elias,
e o resultado anterior?Deu cobra, deu macaco. Ninguém
ganhou! Mais tarde, já casado com uma prima, confessou:
- Teve dia que fiquei com o valor do prêmio. Pouca gente
reclamava. As distâncias favoreciam o malandro.
Quando fiz dezesseis anos, meu pai me entregou a um cidadão
de outro engenho. Eu não queria. Sabia que muita gente
casava mais cedo, porém, nunca me conformei com esse
acordo. O homem era muito mais velho do que eu. Passei três
meses sem falar com meu marido, depois do arranjado. O desejo
de libertação vive em mim até hoje, já
casada pela segunda vez, cheia de filhos e netos, e viúva
do primeiro. O intuito era fugir, arranjar um dinheiro e me
mandar pra São Paulo. Esse dia jamais veio. Mas que tentei,
tentei. Eu era uma menina livre e cheia de vida, nunca iria
me acostumar àquela prisão.
Naquele tempo, isolado de todos, vivia numa cabana, perto da
beira do rio, um preto velho que, contava o povo, fazia adivinhação.
Era José Virgílio. As pessoas diziam que ele adivinhava
o bicho que iria premiar quem tivesse a coragem de caminhar
com ele até uma certa encruzilhada, onde, por força
de muita reza, o cidadão acabava vendo o bicho do próximo
jogo. A vontade de jogar no bicho, ganhar muito dinheiro e fugir,
me fez procurar o velho. Dona Moça, seu marido e seu
pai sabem disso? Meu marido vai consentir. Ele não tem
coragem, mesmo!... Eu tenho!
Com muita dificuldade, meu primeiro marido finalmente concordou
que eu fosse com o preto velho até essa “bendita”
encruzilhada. Contudo, me fez vestir roupa de homem, com chapéu
e tudo, como disfarce. Meu cabelo, naquela época, chegava
perto da bunda, e eu tive de enrolar e cobrir com um chapéu
para que ninguém soubesse que era uma mulher. E assim
foi que, perto do anoitecer, antes das seis horas da noite,
José Virgílio começou a me orientar para
o ritual. Ele iria à minha frente, quase dez metros de
distância, com um livro preto nas mãos (não
era a Bíblia, minha gente), e eu o acompanharia até
o local determinado por ele, onde apareceria o bicho do jogo
de amanhã. O homem tinha um rosário de rezas esquisitas,
das quais eu só decifrei a Salve, Rainha! Saiu pelo caminho
da floresta, passou por uma pinguela, seguiu, seguiu, seguiu
(e eu atrás do homem), até quando começou
a anoitecer. Pois não foi que, perto da encruzilhada,
bem pertinho das seis horas, apareceu aquele vulto do tamanho
de um urso, porém não era um urso. Estava embaixo
da mangueira. Era um cachorro preto. Um bicho daquele tamanho
eu jamais havia visto em minha vida. Depois disso, eu não
lembro de mais nada. O povo disse que eu desmaiei e alguns trabalhadores
dos engenhos que passavam por ali me trouxeram em casa.
Fiquei tão arrependida e pedi tanto a Deus que me perdoasse
por aquele dia que, acredito, hoje, Ele já me redimiu.
Ainda assim, por curiosidade, eu contei a Dona Alice e a Seu
Raimundo, que sempre apostavam no bicho. Coisa pouca. Eu mesma
fiz uma fezinha pequena, no dia posterior ao desmaio. Pois não
é que deu cachorro na cabeça. Não tive
coragem. Meu marido foi buscar o dinheiro do bicho premiado
e se embebedou no barracão. Foi melhor assim. Gastou
tudo com os amigos, e eu jamais reclamei esse dinheiro.
4. HOMENS E MULHERES DA FAMÍLIA
O preconceito contra as mulheres é
bíblico. Meu segundo sogro afirmava: “Mulher é
feito carrapato, com tudo se apega”. Já o velho,
meu pai, não gostava quando alguma filha namorava um
negro. Eu nunca entendi a razão. Papai era um homem de
feições grosseiras; um mulato feio, de cabeça
de bagre. Teve, no entanto, a felicidade de casar com uma moça
linda. Branca, de olhos claros, de bom coração:
minha mãe. Nada daquilo, porém, me impedia de
namorar quem eu bem quisesse. Quando fiquei viúva de
meu primeiro marido, namorei um jovem trabalhador das terras
de meu pai. Às escondidas. Anselmo. Quando eu me determinava
a algo, fazia por obediência ao meu coração.
Quando tomava a responsabilidade de mãe, entretanto,
cumpria meu papel como estava escrito. Aquele rapaz foi a grande
paixão da minha vida. Era mulato. Um dia, deixou o engenho
e nunca mais voltou.
Com a morte de meu primeiro marido, meu pai andava desconfiado
de minhas escapulidas. Vivia dizendo que não era bom
uma filha dele envelhecer sozinha. Minhas duas irmãs,
Maria e Berenice, continuavam casadas, e sentiam inveja da minha
segunda solteirice. Nunca desaprovaram meus namoros. Naquela
época, Doda, meu irmão, já era homem feito.
Jamais casou. Vivia pelo mundo, arrumando um emprego aqui, outro
ali. Às vezes, passava um ano fora do engenho. De repente,
a notícia chegava aos ouvidos de meus pais:
- Doda tá na cidade!
Com dois três dias, gastava toda a indenização
que recebera, de alguma empresa, com os amigos e as raparigas
do cabaré de Teresa Pinto. Toda vez era isso. A cada
volta, o coração de mamãe ficava mais fraco.
Era o único filho homem, e de quem ela mais gostava.
Quando chegava “em casa”, vinha rasgado, sujo de
lama, de vômitos e, quase sempre, com marcas de briga.
Outro dia, foi o Delegado Marcão quem o trouxe. Aquilo
era um martírio para minha mãe, Dona Laura. Ficava
repetindo pelos cantos da casa:
- Bebo é uma derrota!
As casas de minhas irmãs não ficavam longe, e
assim, quando sabiam da notícia, elas se reuniam e se
juntavam a mim para cuidar de Doda. Dávamos banho, aparávamos
a barba, traziam roupas dos maridos para ele. Ficava um mês
ou dois naquela restauração. Até ajudava
papai na condução do engenho... Daria um bom capataz.
Era trabalhador e amigo dos trabalhadores:
- Doda, me conta de São Paulo. Tem muita mulher bonita?...
- Doda, tem jogo domingo contra o Engenho Flechas de Cana!...
- Doda, aquele filho de Mariinha do cabaré é teu!
É a tua cara, cabra véio!...
Papai assumiu a guarda do suposto filho de Doda, depois que
a mãe morreu. Parecia realmente com ele, em tudo. Até
o jeito despranaviado de ser. Quando o menino não estava
doente, o quintal era pequeno para ele. Bulia com as galinhas,
corria atrás dos porcos, chutava Catita, um cachorrinho
magro que tinha na casa, e ainda me dava o prejuízo de
ter que dar banho, trocar de roupa e levá-lo pra escola,
na cidade. Levar e ir buscar!
Dessa última vez, Doda ficou em casa por bastante tempo.
Ficou até quando me casei, pela segunda oportunidade,
com um rapaz da cidade, que conheci na festa de São Sebastião.
Depois da festa, Doda pegou Lucas, seu filho, botou debaixo
do braço e se mandou. Mora, hoje, no sertão do
Pajeú, com uma mulher. Amigou-se. Ela lhe deu duas filhas
lindas e ainda cuida do filho dele. Doda virou comerciante,
e eu me tornei dona de casa, de novo.
5. ÁGUA PRO NETINHO...
De volta à vida de casada, minha mãe me ensinou
alguns procedimentos de vida que me foram essenciais, naquela
época, apesar de rudimentares. Como meu primeiro marido
não me deu filhos e me afastava muito da companhia de
minha família, comecei, logo após o segundo casamento,
a contar para mamãe algumas experiências novas
que eu estava passando e procurava me aconselhar com ela quando
encontrava dificuldades. Não existia nenhuma reserva.
Quando engravidei pela primeira vez, eu contei para ela que
o bebê mexia muito na barriga, à noite, e que aquilo
me incomodava muito. Por vários dias, estive bastante
inquieta e sem conseguir dormir. O bebê parecia uma bola,
pra lá e pra cá. Ela me falou que, nessas horas,
eu procurasse o calor do corpo do pai. Dito e feito, na noite
seguinte, quando da primeira ameaça de traquinagem do
bebê, abracei o corpo do meu marido, e o bebê num
instante ficou quietinho,quietinho...
Nos primeiros meses de vida do Eduardo, começaram a
aparecer pequenas brotoejas no seu rostinho. Mamãe falou
que eu procurasse evitar o mundo todo de beijar e cheirar o
bebê a toda hora e a todo instante. Que passasse fios
do meu cabelo pelo rosto dele. A primeira medida preventiva,
claro, era uma primitiva lição de higiene, porém,
a segunda, nada mais era que uma das inúmeras simpatias
que nossas avós vêm passando de geração
a geração.
Agora, quando relembro esses momentos de agonia e felicidade,
me ponho a rir. Até do fato que ocorreu nos primeiros
dias de vida do Eduzinho. O menino, mesmo amamentado todos os
dias, não parava de chorar. Fiquei bastante preocupada,
pois, não sabia a razão de tanto choro. Fiz uma
consulta à velha medicina da mamãe. A mamadeira
daquela época era de vidro. Mamãe pegou da mamadeira,
fez um chazinho de erva-doce e deu ao bebê, porém
o bichinho continuava a chorar. Ela olhou, olhou e, de repente,
se virou para mim como se estivesse na banheira de Arquimedes:
– Ô, menina, você vem dando água ao
bebê?...
– Mãeee!.... – Respondi com uma negativa
no rosto.
Aí ela diagnosticou na hora o motivo do choro:
– Você quer matar o menino de sede, criatura?!...
Imediatamente eu lavei a mamadeira, enchi de água e dei
ao meu filhote. O menino bebeu tanta água que adormeceu.
Teve o primeiro sono tranqüilo da sua vida. Parecia um
anjo.
6. DEUS NÃO ME FEZ HOMEM
Tem gente que demora a amadurecer, aí, algumas coisas
na vida acontecem para nos envelhecer com mais rapidez. Vem
o inesperado e quebra uma parte da vida da gente como se esta
fosse de vidro... O carro preto passou duas vezes pela rua onde
moro. Eu já estava morando na cidade. Circulou como circula
o urubu quando vê carniça. Geralmente, quando vejo
um carro da polícia vagando pela rua onde moro, eu fecho
logo as portas, principalmente se for à noite. Nada contra
a instituição, mas nunca tive simpatia pela polícia,
desde o tempo de pequena. Tem idéias que entram na sua
cabeça e você não consegue tirá-las
de lá por dinheiro nenhum. No muro, final da rua, onde
a molecada se concentra, à noite, pra jogar conversa
fora, havia três rapazes. Não havia mandado, não
houve revista, e os policiais já desceram do carro atirando.
Infelizmente, todas as balas pegaram no meu sobrinho. Só
fui ver porque bateram na porta de minha casa e comunicaram
o ocorrido. Não quis acreditar que meu sobrinho estivesse
envolvido com drogas, e não estava. Foi pego enganado.
Confundiram-no com um sujeito que havia praticado vários
assaltos na redondeza e ainda trazia maconha do sertão
para distribuição na cidade. Vi o sangue no muro
e o corpo do garoto estirado. Não corri como uma louca
pelas ruas da cidade, porque, apesar de Deus não me ter
feito homem, ainda sei segurar certa carga de sofrimento que
nos aparece de vez em quando. O grito de indignação,
jamais! Muita gente sabia quem atirou, porém, ninguém
nunca quis testemunhar contra ele.
Enterramos o menino. Ajudei minha irmã e o pai dele na
preparação. Meus pais me ajudaram muito também,
porque, certas horas, é impossível você
não chorar. A dor de enterrar um filho, ou gente mais
nova do que a gente, marca pro resto da vida. No velório,
para aumentar a dor, o policial que cometeu o “erro”
me veio pedir desculpas. Não teve coragem de encarar
os pais do garoto. Eu pedi pra ele se retirar da casa. Aquilo
era demais pra família, minha gente! Agora eu sei o porquê
de Deus não me ter feito um bicho-homem. Aquele caboclo
não teria saído vivo do velório. Nossos
pais nos pediram cautela e resignação, e só
o tempo se encarregou de estancar aquele gosto de sangue na
boca..
Hoje, ainda vejo o carro preto circulando livremente pelas ruas
da cidade, com os vidros escuros que o povo chama de fumê.
Porém, eu guardo a certeza de que é ele que vai
ali dentro. Sem remorso nenhum. Que gente desse tipo não
guarda remorso... Ou guarda?...
O tempo passa e, em alguns dias, pareço compreender a
razão pela qual Deus entendeu de me fazer mulher, e mulher
sem aquele espírito guerreiro da Joana D’arc. Outros,
eu fico realmente duvidando se os deuses ficam satisfeitos quando
a gente consegue assistir a certos acontecimentos, calados,
e sem nenhum poder de reação.
7. AS FONTES DA ADIVINHAÇÃO
No engenho onde a gente morava, se acordava muito cedo para
as tarefas do dia. Os trabalhadores atravessavam a ponte de
ferro, para o outro lado do rio, onde ficavam as plantações
de cana. Levavam, lá de casa, garrafas de vidro, canecas,
latas de flandres cheias de café e marmitas com os almoços
prontos.Eu e Doda cuidávamos dos animais. Doda saía
para liberar os cavalos e os bois das suas cocheiras e soltava
os bichos para a pastagem no campo aberto. Eu tratava da pocilga.
Antes, porém, ordenhava as cabras leiteiras e colhia
os ovos das galinhas poedeiras. Na pocilga, eu colocava uma
dosinha de creolina na água, parar tirar o mau cheiro
do mijo e, também, das fezes dos porcos. Éramos
bem jovens, porém, papai já nos queria trabalhando:
- Os passarinhos não devem nada a ninguém e, cinco
da manhã, estão assoviando na porta de casa. Já
estão na luta, à procura de comida! – repetia
meu velho pai quase todo dia. Mamãe, minha avó,
Inês, e Mira, a empregada, ficavam cuidando das coisas
da cozinha. Na volta pro café, Doda sempre vinha com
uma novidade:
- Os anuns brancos hoje estavam muito agitados. Canto rouco,
mãe.
- Estavam adivinhando chuva. – Advertia minha vó,
Dona Inês.
Por outro lado, minha irmã, Berenice, parecia uma princesa.
Não gostava de trabalhar e dormia até tarde. Meus
pais pelejaram muito com ela, e acabaram desistindo. Foi um
alívio quando ela casou com um rapaz de outro engenho.
Outro dia, quando a gente voltava de uma visita a casa dela,
avistamos muitos urubus sobrevoando o engenho do Coronel Dioge.
Minha vó adivinhava: - Um é gosto; dois é
desgosto; três é carta; quatro é convite;
cinco é encontro, e seis é desgraça!
Uma vez, em casa, eu relembrei pra minha vó: - Ô,
vovó, mais de seis urubus é desgraça que
vai acontecer, é? Dona Inês me alertou: - Minha
filha, não fale esse nome feio dentro de casa, não,
que chama coisa ruim! Era sempre assim. Vovó sempre tinha
um repertório de superstições para explicar
os pequenos mistérios da vida. A ave chamada “lavandeira”
era tida como sagrada para ela. Não queria que Doda usasse
o “badoque” contra ela. Vovó contava que
Nossa Senhora, quando deu à luz a Jesus Cristo, as “lavandeiras”
pegavam os panos sujos pelos biquinhos, molhavam na água
para lavá-los, e entregavam limpinhos aos pés
da Virgem. Doda tinha um respeito tão grande por esse
pássaro, que não deixava nenhum menino da “requinha”
dele encostar nos bichinhos: - Vovó disse que essa ave
é de Nossa Senhora, não pode bulir!
Vovó teve uma vida extraordinária. Ela tinha muito
medo de dias chuvosos, daqueles com raios e trovões.
Ficava recolhida no quarto, apegada com um rosário e
a imagem de Santa Bárbara. Comentava que, se alguém
visse um raio caindo em campo aberto, a quantidade, em metros,
do buraco aberto na terra, seria o número de anos que
a pessoa ainda viveria. Se o raio caísse em cima de uma
árvore, alguém da casa mais próxima àquela
árvore morreria.
Coincidência ou não, minha gente, quando vovó
adoeceu, choveu muito naquela noite. Por essa razão,
os caga-fogos não apareceram para iluminar o quintal.
Ficou quase todo mundo de vigília e poucos conseguiram
dormir Pois, nem bem amanheceu o dia, os trabalhadores já
cercavam uma árvore, em frente da casa, que foi atingida
por um raio. Doda saiu a cavalo para procurar o médico,
porém, o meu olhar não se desgarrava daquela árvore
partida ao meio, como se algo colossal tivesse desfechado um
golpe com um machado gigantesco.
Depois de uma semana de sofrimento, vovó veio a falecer.
Entretanto, o que mais me impressionou durante os dias em que
vovó permaneceu acamada, foi vê-la secando na cama,
dentro do quarto, e, lá fora, a árvore atingida
pelo raio também secando, ao relento. Acaso ou fatalismo,
termino com tristeza a historinha, lembrando que, no dia em
que vovó deu o último suspiro, a árvore
no pátio em frente de casa estava totalmente seca.
8. AJUDANTE DE
PARTEIRA.
Aprendi com minha avó a arte das parteiras e, sem falsa
modéstia, ajudei a salvar algumas vidas A maioria, gente
pobre. Joana, nossa vizinha, deu à luz no terreiro feito
uma porca. O menino sujo de areia e sangue. Foi um sacrifício.
Vovó foi chamada às pressas e eu, como sempre,
correndo atrás dela. Precisamos de muita água
limpa e os panos todos da cozinha... Minha irmã também
teve um parto difícil. Encontrei-a quase desmaiada e
achando que ia morrer. Eu olhei para ela e disse: “Berenice,
você está tendo um filho e precisa de ajuda”.
Vovó novamente chegou às pressas. O menino nasceu
com lábios leporinos. Anos mais tarde, morando na cidade,
alguém me informou que a sífilis era a causadora
daquele mal. Vovó brigava e afirmava que a causa do menino
ter nascido daquele jeito, foi o fato da mãe, quando
grávida, ter guardado as chaves da casa entre os seios.
‘Minha filha, quando estiver grávida e for sair
para algum lugar, deixe as chaves com uma vizinha de confiança’,
dizia. Vovó purificou o sangue de muitos maridos com
essa história. A palavra dela era um dogma.
Quando o menino nascia laçado, ela dizia que a causadora
era a mãe, que não sabia amarrar direito algum
animal criado em casa, e se enroscava nas cordas. Contudo, o
mais interessante em vovó como parteira, era seu estudo
sobre o cordão umbilical: primeiro, ela aconselhava sarar
o umbigo do recém-nascido com o pó do pipiri torrado.
Pipiri é uma planta usada na fabricação
de esteiras. Você pegava uma fibrazinha daquela, botava
no fogo para torrar, e, com o pozinho obtido, colocava no umbigo
do menino. No outro dia, aquela parte pendente do cordão
umbilical caía, e o umbigo amanhecia fechadinho. Depois,
não se jogava fora aquela parte do umbigo. Era preciso
alguns cuidados. Por exemplo, se ele caísse no fogo,
ela dizia, o menino poderia morrer queimado ou se acidentar
em algum incêndio; por outro lado, se o umbigo fosse jogado
na água, o menino jamais morreria de afogamento. Contudo,
se a mãe quisesse que o menino crescesse e fosse um homem
trabalhador, ela teria que plantar o umbigo num roçado.
E, se por azar, o restinho do umbigo fosse comido pelos ratos,
o jovem poderia se tornar um futuro ladrão. Eram crendices
que acompanhavam a vinda de muitos infelizes a este mundo de
meu Deus. Todas com a assinatura da minha avó, que tinha,
naquela época, nas vizinhanças, uma autoridade
de cartório.
Ah, ia me esquecendo de uma coisa: o como fazer para resolver
situações em que o menino ficasse preso na barriga
da mamãe. Vovó recomendava pisar quatro pimentas
do reino, jogar dentro de uma xícara de café e
acrescentar uma colher de sopa de manteiga caseira. Ela mexia
a mistura, coava a borra da pimenta e dava à gestante.
Era um “facilitamento”. Segundo vovó, o menino
se despregava das paredes internas da buchuda, sem a necessidade
e a brutalidade dos fórceps, e escorregava tranqüilo
para a luz, cumprir sua história.
Hoje, é cada mulato forte, bonito, e eu digo, que saudade
da medicina da vovó!
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