1968 foi um ano especial para mim. Eu passei no concorrido exame de admissão ao Ginásio Agrícola de Escada. Estava com onze anos e morava com meus pais, em Ribeirão, interior de Pernambuco, e mais oito irmãos. Para um aluno de família carente, era uma vitória parecida com a passagem num Vestibular em universidade pública. Além do mais, por ser de ensino gratuito, a minha ida para o internato aliviava um pouco as finanças do meu Pai, às voltas com a criação e educação de mais oito filhos.
A maioria dos alunos pobres daquela época corria para colégios agrícolas como aquele, pois eram referências de boa qualidade de ensino, além de fornecerem um curso profissionalizante. Tais colégios apontavam um futuro promissor. Em Pernambuco, além do ginásio de Escada, funcionavam um ginásio na cidade de Palmares e dois cursos técnicos em Agricultura, nos municípios de Barreiros e Belo Jardim. Havia mais um curso técnico em Tapera, distrito de Vitória de Santo Antão, que, anos depois, foi, junto com a vila, submerso nas águas da barragem de Tapacurá.
Viajei com quatro meninos da minha terra e o mais velho foi indicado por minha mãe para tomar conta de mim. De Ribeirão até Escada, a viagem de ônibus durava meia hora, porém, apesar da pouca distância de uma cidade para a outra, na primeira noite longe da família, logo após o café, me veio lágrimas nos olhos. Ficamos: eu, de onze, João Agripino, de doze, e Ilo Victor, de treze anos, no pátio do internato, olhando as luzes da cidade de Escada. Éramos, os três, filhos de Ribeirão, e achávamos que aquelas luzes eram da nossa cidade. A saudade batia rápido demais nos primeiros dias, depois, fomos nos acostumando. Longe de casa, um ambiente desconhecido torna-se, no começo, aparentemente hostil. Dezenas de alunos de cidades diferentes e alguns até de outros estados da federação vinham estudar naquela escola.
O internato não era um convento, pois tínhamos os fins-de-semana para visitar os pais, mas, o ano de 1968, como foi um ano de grandes acontecimentos, a reclusão de cinco dias por semana nos afastou do conhecimento de muita coisa que acontecia aquém, fora do colégio. Dos principais acontecimentos daquele ano, poucos, principalmente os que envolviam manifestações políticas, passavam pela nossa porta. Porém, um determinado dia, no primeiro ano de estudo, me dirigi para a sala de aula após o café, e, para minha surpresa, ela estava praticamente vazia. Cinco alunos somente assistiam à aula de Geografia de uma turma de quase sessenta. Os corredores do internato estavam tumultuados. A maioria dos alunos estava fora das salas. Foi meu primeiro contato com uma greve. Tudo por conta da comida que foi servida no café: de péssima qualidade. Os alunos da quarta série ginasial encabeçavam a paralisação. Sem comida de qualidade, ninguém assistiria aula, era a reivindicação. Para um aluno de onze anos, aquilo me assustou. Os mais velhos gritavam para a gente sair da aula. Xingavam e nos chamavam de medrosos. Ameaçavam uma batida coletiva de talheres, na hora do almoço. Eu só consegui coragem para me incorporar à greve e sair da sala de aula, depois que vi meus dois amigos, Ilo e Agripino, do lado de fora. Aquela foi a primeira experiência da minha vida sobre como lutar pelos nossos direitos.

Durante quatro anos, todo domingo, à tarde, mamãe preparava minha mala com roupas, material escolar e algum lanche para que eu guardasse no meu cubículo. Todo aluno, ao chegar no internato, recebia uma cama, fardamento e um cubículo que servia de armário, e que ficavam sob sua responsabilidade. A cama era escolhida por ordem de chegada. Os alunos que chegavam primeiro escolhiam os melhores alojamentos. O prédio central possuía quatro alojamentos na ala esquerda e quatro na ala direita. Cada alojamento tinha um máximo de vinte e quatro alunos divididos em doze beliches. Parecia um quartel. Um quartel que oferecia uma certa liberdade.

Ao lado esquerdo do prédio central, havia um campinho de peladas. Na verdade, era um campo de futebol de salão, ainda no barro. E, logo após, funcionava um refeitório. Defronte a este, também no barro, era o nosso campo de futebol. Campo de memoráveis peladas. Do lado direito do prédio central, um pouco recuado, havia as salas de aula: da primeira a quarta série ginasial, com uma média de cinqüenta alunos por sala. E, ao redor do colégio, todo um campo para o ensino da Agricultura, da Mecânica Agrícola, da Zootecnia e outras matérias técnicas adequadas ao curso. Nesse curso ginasial agrícola de quatro anos, você era obrigado a passar de ano. Não havia repetência. Levou pau num ano, caía fora do internato. Quem era aprovado, seguia em frente.

Hoje, sei que, naquela época, enquanto vivíamos enfurnados no trabalho e estudo diários dentro da escola, praticamente alheios ao mundo exterior, moviam-se aqui fora os tentáculos de uma ditadura que desaparecia com jovens como nós que lutavam por uma sociedade mais justa e tornava exiladas grandes consciências deste país. Penso, e posso estar enganado, mas acho que o governo daqueles dias planejou tais escolas para afastar o jovem crescente da consciência política que tomava conta de uma geração inteira. E, mesmo assim, sabíamos por alto, que alguns de nós, geralmente os mais velhos, estavam, de alguma forma, envolvidos com essa luta política.
Hoje, mais do que nunca, eu sei que aquele protesto contra a péssima qualidade da comida teve algo a ver com as coisas que aconteciam aqui fora. Acontecimentos que, tristemente, já fazem parte da nossa História. E que tais exercícios de rebeldia, nos anos que se sucederam naquele internato, foram abafados com ameaças de expulsão e até de exclusão da vida escolar. Uma disciplina quase militar tomou conta da escola depois daquela primeira insubordinação. O resto da história, a gente já sabe...


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